Hoje, fui visitado por um sábio
Pitágoras recusou para ele o título de sábio. Preferiu Filósofo. Aquele que ama a Sabedoria.
Hoje, fui visitado por um sábio que, sendo-o tal como Pitágoras, apresentou-se como um velho homem do campo.
Não consigo, em profundidade, descrever todas as palavras que me transmitiu. Mas agora que me sento nesta camioneta que me leva a Angra, pelo velho caminho das Freguesias, tenho de tentar deixar por escrito, no máximo que conseguir, este estranho encontro, antes que dele me leve a memória.
Tudo na vida parece ocorrer de forma estranha. As coisas acontecem por algum motivo, com encontros que são inesperados, mas que, por alguma razão, depois parecem ser marcos determinados por uma consciência ou vontade que não alcanço.
Talvez seja legítimo perguntar até que ponto a nossa vontade não determina os encontros casuais, de uma forma que um dia compreenderemos quando ao Uno soubermos ver.
Estava assim sentado na paragem das camionetas, a mesma que todos os dias passava, olhando e lamentava a sorte de quem esperava por uma camioneta para se deslocar na ilha.
Hoje era eu no lugar do outro.
Sentei-me e abri Agostinho da Silva, sabendo de antemão que factos estranhos ocorrem quando lemos Agostinho da Silva.
Começo por sublinhar passagens e passados 10 minutos eis que um homem, polido, magro, de feições bonitas nos seus 85 anos (83, como me disse depois), pede licença para se sentar ao meu lado.
O silêncio inicial dos 10 minutos é quebrado com a minha pergunta para saber se vamos para o autocarro. Esta é a paragem para Angra responde."( Escrevo agora sem ver o teclado, porque, para além de estar num autocarro, deleito-me com as colinas e caminhos por onde agora vamos. Corrigirei as imperfeições posteriormente. )
Rápido intervalo na escrita para evitar enjoos.
Dizia eu que ele se sentou ao meu lado e pergunto-lhe se a camioneta ia para Angra do Heroísmo. Disse-me que sim, e logo na forma como articulou as palavras, percebi que se tratava de alguém bem educado, com um português cuidado e sem sotaque evidente.
Contei-lhe que estou cá há cerca de doze anos.
Perguntou-me de onde sou, e respondi que sou de Grandola. Sorriu, e com olhos a brilhar, logo me disse que não consegue ouvir falar em Graândola sem se recordar dessa coisa bonita que foi o 25 de abril.
Contou-me então que, antes do 25 de abril, a Ilha tinha luz a petróleo e era predominantemente rural, exceto por três freguesias piscatórias, como São Mateus.
Os agricultores, como ele, cultivavam milho e batata, vendendo parte da produção para comprar sapatos e roupas.
Falou-me sobre as mudanças positivas que o 25 de abril trouxe à ilha, embora tenha observado que Caetano já havia introduzido casas do povo nas freguesias, considerando isso um avanço.
( Contemplo agora o oceano a uma altura considerável no meio de um caminho que nunca percorri. )
Disse-me que Marcelo Caetano talvez tivesse evoluído para a democracia se estivesse rodeado de melhores pessoas, mas estava associado aos homens do dinheiro, interessados na ditadura.
Concluiu com uma síntese: no mundo, tudo gira em torno do dinheiro, do poder e do sexo. Os homens perdem-se com essas três corrupções, sendo o dinheiro o pior, considerando-o como o "deus" da sociedade actual.
A nossa conversa então mudou para os filhos. Perguntou-mr quantos tenho, respondi três, enquanto ele tem dois a viver no continente. Quando vai lá, passeia e sente até mais vontade de comerVolta a falar das 12 Ribeiras e diz que é a freguesia com mais bailinhos. Que é uma freguesia rural, mas que entre aqueles agricultores, uns fazem uma dança, outros poemas, e todos participam. Que agora participam as mulheres, mas antes não. E que é uma coisa boa.
Pergunta-me se sou católico, não respondo, mas a pergunta era só para pedir desculpa e para dizer que é a forma de pensar, e que poderia haver outras.
Ele disse, na Bíblia dizia-se, a propósito de certos acontecimentos que "estavam 8 mil pessoas, fora as mulheres e as crianças". Que isso era uma tristeza, as mulheres e crianças não contavam para nada. Mas que Jesus, meteu Madalena entre os Apóstolos e que seria até amante ou junto com ela. E que isso estava certo. Alias, naquele tempo, os homens com responsabilidade tinham que ser casados... Jesus tinha que ter uma mulher. Pois foi de uma importância extrema e era ouvido.
Que as mulheres são importantes agora e que estão cada vez mais a participar nas coisas, que antes não faziam parte do Espírito Santo, do Bodo, dos Bailinhos, das Funções... e que são tão ou mais inteligentes que os homens.
Uma senhora pergunta a que horas vem o autocarro e ele diz que daqui a dois minutos virá, pelo horário.
Diz-me então que não anda de autocarro, mas hoje tem o carro avariado e, por isso, precisa.
Digo que é o mesmo comigo, pelo que somos dois utentes improváveis que se juntam.
O autocarro atrasa. Manifesta-se no discurso preocupação e nervosismo por isso.
Percebo que pede desculpa à senhora a quem deu a informação, dizendo que está atrasado,
Refere que não faz sentido atrasar-se e noto que ficou preso na palavra que deu à senhora e ao facto de o horário não ser cumprido quando não havia motivo para tal.
Entra no autocarro, penso que se sentará ao meu lado, mas segue para outro banco e despede-se com cortesia.
Nunca mais o vi.
Estamos agora a chegar a Angra.
Não sei o seu nome, sei que mora algures entre a Praia e Angra, e saiu do autocarro sem dar por ele.
Comentários
Enviar um comentário